sábado, 29 de maio de 2010

CARROS DEMAIS

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Será que um dia o ABC terá massa crítica para propor suas "medidas ousadas"? Ou viveremos sempre a reboque da capital? (Vide a Lei Cidade Limpa de São Caetano, e a discussão sobre a mesma lei agora em Santo André). O subúrbio é bem o lugar da repetição, do erzatz, da cópia: é, de certo modo, a sub urbe, uma quase urbe ou pólis... 


Soube que um vereador de Santo André defendeu, pensando no trânsito, uma medida simples: nos dias pares, os carros de placas pares; nos dias ímpares, os carros de placas ímpares é que poderiam estacionar na cidade. Polêmica? Sim. Mas a ideia nem chegou a ser discutida. Se São Paulo propor algo do tipo, bem, quem sabe...




CARROS DEMAIS


Ruy Castro


























Há medidas ousadas no ar. No Rio, o prefeito Eduardo Paes quer fechar ao trânsito a avenida Rio Branco e transformá-la num boulevard para pedestres. Em São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab quer pôr abaixo o Minhocão e revitalizar a enorme área degradada pelo viaduto.



As propostas alvejam o pior inimigo do homem e das cidades modernas: o carro. A ideia é tirar o maior número de veículos das ruas, deixando-as para o cidadão e para os veículos que precisam circular, como táxis, ônibus, ambulâncias e caminhões de serviço. Supõe-se que, para complementar as medidas, os prefeitos criarão faixas exclusivas, abrirão mergulhões e incrementarão o transporte coletivo.


Nos dois casos, trata-se de reduzir a hostilidade das cidades e devolvê-las a um tempo em que eram mais amenas e humanas. A avenida Rio Branco, por exemplo, quando inaugurada -em 1904, chamada avenida Central-, nasceu como um boulevard. Em suas calçadas povoadas por cafés (dos quais o Nice era apenas o mais famoso), fechavam-se negócios, empresas mudavam de mãos, tramavam-se golpes de Estado -enfim, decidiam-se os destinos do Brasil. Enquanto isso, na mesa ao lado, alguém vendia um samba ou discutia futebol. A vida corria em torno.


Hoje essas decisões são tomadas nas catacumbas de Brasília, sem conexão com a vida real. Uma delas, a de entupir o Brasil de carros, com o crédito a perder de vista, pouco ligando para o fato de que eles estão tornando impraticáveis as cidades mais amorosas. Nas últimas semanas, estive em Joinville, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte e Ouro Preto. Em todas, a mesma queixa: carros demais.


Sei bem que tirar os carros da rua lesa os direitos individuais de quem pensa que não consegue viver sem eles. Mas os nossos, dos pobres citadinos acuados, vêm sendo lesados há muito mais tempo.




Folha de São Paulo, p. 2, 24.05.2010.


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3 comentários:

  1. É por aí. Agora é preciso valorizar o que é público, e exigir que ele cumpra os pressupostos que são suas razões de existir. .

    Abç

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  2. "A ideia nem chegou a ser discutida"!

    Quase nada é discutido neste País, e quando é vai para a gaveta, não é?

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  3. Valeu pela visita, caro Gentil!
    Abraço!

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