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O Pai vai fazendo a lasanha de domingo, dia em que os filhos chegam todos para visitá-lo. Eu, na mesa da cozinha, leio o jornal, observado pelo cachorro sonolento, deitado na soleira da porta.
Chamo o Pai:
- Olha aqui, Pai. Você conhece esse sujeito? E essa praça, veja bem, sabe onde é?
Meu velho olha para a foto, força a vista sem óculos e vai dizendo que não sabe quem é o homem sentado da foto, Mas então, ele lembra:
(As Casas Populares são um conjunto habitacional, eminentemente operário, construído na década de 50 em Santo André). Essa praça é aí a de Santa Terezinha.
E então meu Pai dá a escalação do Ouro Verde: Licinho, Juba, Enir, Cuca...
Depois, diz:
- Não lembra, quando teve a gincana na tua escola (isso foi em 1986!), que precisava levar um jogador de futebol prá ganhar ponto, e a gente foi buscar o Licinho lá na casa dele? Era dessa turma... De vez em quando eu encontro o Licinho, no açougue. O Enir, faz tempo que não vejo...
Olho pro meu Pai, que lê a reportagem do Estadão, e sinto uma ternura por seu passado, pelo passado da cidade, pelas Casas Populares, onde ele morou na infância, pela praça de Santa Terezinha. E pressinto que talvez não exista "a grande história" ou a "pequena história". O que há é a vida, ligando tudo a tudo.
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Santos, 1ª vítima da história do S. André
Enir Ghirelli marcou o 1º gol da equipe do ABC justamente contra o adversário de hoje.
Pelé estava na torcida.
Ana Paula Garrido - O Estado de S.Paulo

Após receber a bola do centroavante, ele dominou com pé direito, apesar de canhoto, cortou o volante adversário com um drible curto - talento vindo do futebol de salão - e, em vez de bater cruzado como sempre fazia, chutou em paralelo: 1 a 0. Foi assim o primeiro gol do Santo André numa partida oficial, curiosamente em um amistoso contra o Santos, no dia 14 de abril de 1968. "Não dá para esquecer, foi um chute seco, que levantou cal das linhas do gramado", conta Enir Ghirelli, hoje com 64 anos.
No outro lado do campo, o Santos trouxe um time misto, "mas era um misto quente, com Aroldo, Orlando Peçanha e Pepe", pondera. Pelé não jogou, mas assistiu ao feito do camisa 10 andreense.
O santista Werneck chegou a empatar a partida, mas Zezé definiu a vitória do time do ABC por 2 a 1. Enir queria que Pelé jogasse, mas descartou que tenha ocorrido um possível "corpo mole" do adversário. "Eles foram para cima. O Negreiros deu muito trabalho para gente", lembra.
O então meia-armador não tem ideia de onde possa estar a camisa usada naquele dia, que, ao contrário do famoso uniforme amarelo do time, ainda chamado de Santo André Futebol Clube - em 1975, passou a ser Esporte Clube Santo André -, era branca, com listra vermelha, verde e as costas amarelas. Apesar de ainda não haver o costume de trocar a camisa com os jogadores do outro time, Enir lembra de ter entregue a dele. "No final, a torcida invadiu o campo, foi a maior festa, e um garoto pediu minha camisa", conta.
Trajetória.
A relação com os dois times vem de longe. Nascido em Santo André, Enir passou a infância em Santos, onde chegou a jogar na equipe juvenil da Vila Belmiro.
Aos 13 anos, voltou para o ABC e atuou pelo Ouro Verde Popular: o "meu time do coração", revela. Lá, passou pelo infantil, juvenil e equipe principal. "Daí surgiram convites e virei profissional", disse.
Depois de quatro anos em diferentes clubes, conseguiu o passe livre e resolveu aceitar o convite do Santo André, ainda em formação. A equipe contratou alguns jogadores profissionais e completou o elenco com pessoal da base. "Eles chamaram o Manga, ex-goleiro do Santos. Senti firmeza e pensei, "vou"", explicou, sem arrependimento.
Segundo Enir, o time era bom, tanto que disputou a segunda divisão e "quase subiu no primeiro ano". O salário, no entanto, era bem abaixo do que se paga hoje para os atletas profissionais, mesmo para quem disputa a segunda divisão.
Outro aspecto interessante daquela época estava na pressão exercida pela torcida sobre o time que jogava em seu estádio. "Ninguém perdia em casa", afirma. O próprio time de Enir sofreu apenas uma derrota em confrontos no ABC, em 1968.
Sem acesso.
A dificuldade dos times pequenos estava em se manter. Ainda mais com o fim da lei de acesso das equipes inferiores. "Muitos foram trabalhar nas firmas da região", comenta o meia-armador. Ele mesmo foi trabalhar na General Motors. Nunca mais voltou a jogar, exceto nas partidas entre os operários. Só voltou ao estádio uma vez, para ver Santo André e Rio Claro. "Não aguentei assistir ao primeiro tempo inteiro e fui embora", reclama.
Segundo Enir, o atual time do ABC, no entanto, tem talento e possibilidades de surpreender. Mínimas, porém. "O Santos tem 95% de chances e o Santo André, 5%". Situação parecida ao do seu tempo, com o Santos também em alta. "Mas, na hora em que a bola rolou, tudo mudou", recorda-se o herói do jogo histórico.
Ex-jogador agora aproveita para curtir a família
Hoje, Enir Ghirelli assistirá ao primeiro jogo da final pela televisão, em sua casa, no antigo bairro Santa Terezinha, em Santo André. Aposentado há 14 anos, sua rotina agora é "jogar sinuca e beber cerveja", conta. E, é claro, acompanhar a carreira do filho Aquiles, que preferiu a música ao esporte. "Eu até achei melhor (ele não ser jogador), se bem que agora se paga melhor", comenta. As histórias da época de atleta, no entanto, faz em sucesso na família. Além de Aquiles, Enir é pai de Eliana e Sueli.
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