terça-feira, 1 de dezembro de 2009

MANIFESTO EM MEMÓRIA DE UMA CIDADE PERDIDA

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O manifesto abaixo, de minha amiga Fátima Guides, quer nos fazer pensar naquilo em que nossa cidade vai se transformando, rapidamente. O texto e as fotos dispensam maiores apresentações.

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MANIFESTO EM MEMÓRIA DE UMA CIDADE PERDIDA
(e juro que não é a Santo André da Borda do Campo!)
Para quem a carapuça servir:
A reivindicação do passado não se efetua na cópia, mas na preservação do autêntico, já dizia Ramon Gutierrez.

E hoje eu estou aqui só para isso, para reivindicar o MEU passado. O passado que trouxe o meu avô entusiasmado com a possibilidade de trabalhar numa cidade que se formava com tantas indústrias. Um passado que trouxe na outra ponta da minha árvore genealógica o meu pai que veio descalço num trem do interior de São Paulo estrear seu sapato novo no seu trabalho novo numa cidade nova.

Estou reivindicando uma memória que não só é (ou já era!) fisicamente construída, mas sonorizada, ouvida aos finais de semana num bairro inteiro que se erguia. Como uma orquestra: casas que juntas eram construídas em meio a uma confusão incessante de carriolas, pás, marteladas consecutivas, literalmente, o próprio tumulto da construção. Esse era o bairro e a cidade que meu avô descrevia. Mal dava pra se conversar à mesa aos domingos, tamanho era o barulho...

Essas casas de operários do meu bairro... estão indo uma a uma...

Seus grandes quintais dão lugar a essas caixinhas de fósforos conhecidas - e admiradas por muitos! como “apartamentos sem condomínio”(???), que o poder público teve a infeliz idéia de aprovar através de uma lei.

Paulistarum Terra Mater... Cadê você? Não te reconheço mais...

Não vejo mais aquela igreja, não vejo mais as casas de avós com terraço, a casa que minha mãe brincava, o morro no horizonte, as árvores nas calçadas, os quintais...

Só vejo sombras. E sombras físicas provocadas pelas paredes imensas coladas lado a lado dos seus muros - e dos meus também! Antes não fossem sombras e sim, sobras de alguma coisa.

Tudo se foi e vai indo a cada dia. Arquitetos, construtores, empresários, mercado imobiliário e poder público se prostituem e trocam o valor de uma história pelo valor monetário imediato, sem pensar nas conseqüências para a paisagem urbana e, pior, apagando a memória de suas cidades em nome do progresso(?) das mesmas. Até o progresso precisa de alguma ordem!

E cito as palavras de Gaston Bachelard “de que adianta dizer que da minha janela se via a colina?”. Quem se importa comigo ou com minha janela?

Somos todos coniventes com esse chamado progresso... Sonhamos em ir a Europa, juntamos dinheiro para conhecer Paris, Roma,... Ah! Sim! Essas sim são cidades que tem história! Onde a gente mora só tem coisa feia e velha. Credo! Casas caindo aos pedaços, feitas de barro? Com argamassa que nossos próprios pais, avôs, tios (incluem-se aí o artigo feminino de todos eles) faziam com areia que escorria na rua vinda da chuva? Que alarde todo por causa de um “portalzinho”?

Outro dia li num livro uma frase ótima que dizia que TODOS temos obrigação moral de sermos responsáveis por nossos atos e palavras e, inclusive por nossos silêncios.

E afinal, qual é a paisagem da cidade que queremos?

Se for isso mesmo, permaneçamos mudos, só vendo o bonde passar por cima da nossa história e o caminhão passar por cima de nosso portal, de braços cruzados.

Eu sinceramente creio que uma cidade sem passado, não tem futuro.

Fátima R. Mônaco Guides – Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP.

Imagens de nossa cidade que foram apagadas pelo mercado imobiliário:


Abaixo: Vila construída pela Rhodia para seus funcionários na década de 1940, Rua das Figueiras. Fotos tiradas em 2006. A parte interna (segunda abaixo), teve todas as casas demolidas em 2007.























Abaixo: Chácara que pertenceu a Camilo Peduti, loteador do Bairro de Camilópolis. Primeiras duas fotos: casas de colonos. Terceira: escolinha para crianças. Quarta: escritório da loteadora. Fotos tiradas em 2005. Edificações demolidas em 2008, após um pedido de tombamento da área (Que interessante, não? Pedimos o tombamento e as casas foram demolidas...).















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Casa localizada em Santa Terezinha, tipologia típica das casas feitas por operários da década de 1940. Foto tirada em 2007.

Casa demolida em 2008.














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Abaixo: Rua do Centro, bairro de Camilópolis.

Transformação da paisagem urbana. Fotos tiradas em 2007. Casas que foram demolidas.














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Abaixo: Tipologia de habitação rentista da década de 1950.

Bairro de Santa Terezinha. Foto tirada em abril de 2006.

Edificações demolidas em 2008.














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Provável vila operária tipo “correr de casa” construída ao lado da fábrica pela Atlantis para uso de seus funcionários, ainda na década de 1920. Fotos tiradas em 2005. Casas demolidas em 2007.













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Abaixo: Casas localizadas no Bairro Jardim. A primeira ainda existe, porém completamente descaracterizada, sem a fonte, etc. Foto tirada em 2006. A segunda foto, abaixo, também de 2006, é de uma casa localizada na rua das Figueiras, já demolida para dar lugar a um estacionamento.















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Fábrica que se localizava no início da Rua Guilherme Marconi, ao lado da Vila Operária do Ipiranguinha. Foto tirada em 2007. Já demolida.














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Tomada aérea da Rhodia Química, já sem alguns de seus antigos galpões.

Foto tirada em 2002. Hoje, outras construções da área já foram demolidas.














A mais recente perda:

Portal da Vila Mansueto Cecchi, em Santa Terezinha. Fotos tiradas em abril de 2006. Portal derrubado por um caminhão no 2º. Semestre de 2009.














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Vista aérea de Santa Terezinha na década de 1940. À esquerda, em círculo, avista-se o portal da Vila.















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1 comentários:

  1. Marcos,
    muito interessante este texto de Fátima Guides, uma pena o Portal estar agora só na fotografia.
    Não são só casas demolidas, são recordações, espaços despedaçados pela ganância e egoísmo.
    Uma pena.
    Desejo-lhe apesar de tudo e de todos, um ótimo 2010, com paz, saúde e dinheiro.

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